Cheguei a Moscou ao anoitecer de um ameno inverno, como diziam os russos, com 19 graus abaixo de zero e a cidade coberta de neve. Isso aconteceu na década de 80, quando se aproximava a perestroika anunciada pelo relatório de Kruchev ao Partido Comunista sobre os crimes de Stalin, no célebre IV Congresso.
No aeroporto, deveriam esperar-me o secretário da Embaixada brasileira, um intérprete da Intourist e um representante do Ministério da Cultura. Eu viajava na condição de representante da Fundação Roberto Marinho. Mas, como era domingo, não apareceu ninguém.
Me senti perdido, pois não falava russo e não deixava de me atemorizar a perspectiva de ser detido pela policia soviética. Pedi socorro ao simpático embaixador soviético em Paris, que conhecera no vôo para Moscou e, por recomendação do diplomata, uma funcionária prometeu que me acompanharia na alfândega e me ajudaria a conseguir um táxi. Enquanto eu pegava a minha bagagem de mão e empunhava o passaporte, ambos desapareceram.
O picareta
O desembarque parecia cena de comédia dos Irmãos Marx. O funcionário da alfândega não falava inglês, francês, nem castelhano. Gritava e gesticulava com aquela dramaticidade e gesticulação exagerada bem típica dos eslavos e apontava, escandalizado, para os filmes e livros sobre arte brasileira que eu levava para a TV russa e para o Ministério da Cultura. Quase em pânico, apelei para um truque que às vezes funciona em regimes ditatoriais: passei a gritar, em português é claro, mais alto que o funcionário gritava em russo e a gesticular com mais exagero do que ele, lembrando talvez um helicóptero.E deu certo. Nervoso, ele carimbou o meu visto de entrada e me indicou a porta de saída, de maneira quase cortês.
No saguão, o picareta que se fazia entender numa algaravia que supunha ser francês, indicou-me uma fila de táxi, onde logo consegui lugar num veículo já ocupado por outras três pessoas.
Passaporte confiscado
Mal desembarquei no Metropol e fui conduzido ao balcão da Intourist, cujo representante falava inglês, um inglês bem gutural, mas inteligível e, a seguir, o meu passaporte foi confiscado pela policia, depois de me explicarem que aquele era um procedimento de rotina e que durante a minha permanência em território soviético eu me identificaria com um documento russo, já preparado com meu nome.
Fiquei espantado ao me instalar na suite de luxo que me estava reservada.
O comuna francês
Na cama, caberiam umas quatro pessoas, que jamais passariam pelo olhar vigilante da concierge que tomava conta de cada andar, na porta do elevador. O banheiro era
imenso, com espelhos de cristal e revestido de mármore negro.
No hall, havia um enorme aparelho de tv, um cartão de boas vindas em russo e em francês, assim como um livreto com instruções sobre os restaurantes e bares do hotel; as despesas teriam que ser pagas em dólares e a esses locais os nativos só podiam ter acesso quando convidados por um hóspede ou um diplomata.
Àquela altura, tudo o que mais queria era uma boa dose de whisky. Fui ao bar, onde conheci o Léon, um simpático engenheiro francês de Marselha que visitava o país para ver se o comunismo funcionava bem, o que o levaria ou não a se filiar ao Partido Comunista quando voltasse à França. E conheci também a Larissa, que conversava com ele, uma bonita estudante de Física, assim se apresentava, e que falava um pouco de francês e inglês.
Larissa
O francês bebia licor, a russa tomou uma vodca, engoli o meu whisky –sem gelo!- e logo passei a sentir-me em casa. Sem aviso prévio, apareceu um cavalheiro que falava um português digno de Eça de Queiroz. Era Sergei, o meu intérprete, a tratar-me de excelência e a pedir mil perdões por não ter ido ao aeroporto, porque perdera a condução.
No restaurante, uma orquestra tocava música pop internacional e, de vez em quando, música cossaca. Os casais lotavam a pista quando tocava um tango ou uma valsa vienense e os russos, facilmente identificáveis pelos trajes excessivamente formais, dançavam com um entusiasmo que certamente teria convencido Hitler a não invadir o país se ele tivesse tido o cuidado de degustar a sua salada naquele salão.
Depois do jantar, Larissa convidou-me a visitar a Praça Vermelha e a olhar, de fora, pelas enormes portas de vidro, a Biblioteca Lenine, que estava fechada.
Com a cabeça protegida pela chapka, aquele bonézinho de peles que os russos usam e que me fora emprestada pelo Sergei,enfrentei sem sombra de temor aquela vastidão de neve, a solenidade do mausoléu de Lenine e a enorme estrela vermelha que tudo dominava.
Apenas um discreto carro da polícia parecia zelar burocraticamente pela tranquilidade do nosso passeio.
Milicos
O resto da viagem transcorreu sem maiores confusões. o Firmei um acordo de intenções, impresso em cirílico, com o Ministério da Cultura em nome da Fundação e, na volta ao Brasil, Afrânio Nabuco que era o diretor da Rede Globo em Brasilia procurou-me preocupado.
Os milicos da ditadura estavam muito preocupados com a minha viagem e fui aconselhado a esquecê-la. Foi o que fiz, até agora, pois não me agradava a idéia de ter sobrevivido à polícia russa para cair nas garras de um DOI-CODI qualquer, submetido ao fino trato de um sádico Brilhante.
Como qualquer turista, vi muita coisa interessante em Moscou, inclusive o bairro das dachas, para quem não sabe, residências que eram reservadas aos hierarcas do regime soviético. Não me pareceram tão suntuosas quando diziam.
No meio de um bosque, um restaurante de arquitetura moderna, bem elegante e a convite do José Roberto Felipelli,que representava a Rede Globo na Europa, degustei um apetitoso viado e um bom pedaço de javali ao forno, com vinho húngaro que o Boni, imagino, não rejeitaria.
Nevava, como convém a uma despedida de Moscou.
E não havia nenhuma Larissa para tornar menos gelado o vento que marcava a coreografia de saudade daqueles flocos de neve.
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