A cantora Eugénia Melo e Castro admite: “Eu minto. Eu minto para todas as gravadoras. Invento que vou gravar repertórios inacreditáveis.”
Ela vai ao meu encontro no Pandoro. Chega de calças e botas de amazona, revelando pernas bem torneadas, com os quais parece andar aos saltos. A simpatia e o sorriso são os mesmos de sempre. Senta-se à mesa para decidir o que tomar. Opta por uma seleta de pastéis – estamos em São Paulo – e um vinho tinto, da Espanha. Quando começa a falar na necessidade de mentir lembro-me imediatamente do famoso provérbio: a mentira tem pernas curtas. No caso, a mentira tem pernas lindas.
Você está chegando de onde? Esteve em Portugal? Acabou chegando ao Brasil próximo à Semana da Independência…
Semana da Independência… 21 de abril…
21 de abril é Tiradentes! Você não conhece as datas históricas brasileiras!
Então, quando é que é a Independência?
É 7 de setembro. É porque foi aquele rapaz português teu conterrâneo que proclamou…
Não estamos em abril. É muito importante saber que não estamos em abril.
Lá em Portugal, o que falam de Dom Pedro I?
Nada.
Nada? Foi bom? Foi ruim?
Não. A gente teve muitos reis e teve uma dinastia. Não se fala dele. Não existe.
É inexpressivo?
Não. Hoje em dia não se fala muito de reis e rainhas em Portugal. É um assunto que não está em pauta. Reis, rainhas, monarquia é um assunto meio inexpressivo. Inclusive os monarquistas, o Partido Monarquista, eles são verdes, são ecológicos, eles acharam que a única via de se manifestar de forma mais moderna era aderir aos partidos verdes. O que tem uma certa graça.
Dom Pedro I é visto por vocês como traidor?
Nunca! Imagina! Jamais! Tem uma figura emblemática em Portugal que são os Velhos do Restelo. São aquelas pessoas que são sempre do contra. Eles devem ser contra Dom Pedro I. São contra tudo. Não interessa contra o que. Contra. E ser contra é uma característica de Portugal. Dos Velhos do Restelo.
E os Velhos do Restelo quando eram jovens já eram assim?
Já eram Velhos do Restelo! Tem sempre quem ocupa honrosamente o lugar dos Velhos do Restelo. Tem sempre a maledicência, em Portugal, tem aquelas pessoas que não fazem absolutamente nada, não fazem nada para modificar a coisa, mas são sempre contra. E são sempre a voz da moral anônima. São os retrógrados, são contra mudanças, são contra a evolução. Há milhares de Velhos do Restelo. Portugal é um país difícil. Portugal é um país de nômades obrigados a ser sedentários. Portanto, estão presos. Os portugueses são almas viajantes aprisionadas ao território que logo atrás tem a Espanha e na frente tem o mar.
O Brasil …
Não, o Brasil é uma maravilha. O Brasil não oferece qualquer tipo de mágoa. O Agostinho da Silva, que é o nosso filósofo do século 20, eu ainda convivi com ele bastante, um grande historiador, filósofo, ele dizia que os brasileiros são os portugueses à solta. Quer dizer, solta um português que ele vira um brasileiro.
O que eu não entendo é por que os portugueses não ensinaram o sotaque aos brasileiros.
Não. O português que se fala no Brasil é o português quinhentista. Nós é que mudamos.
Está brincando!
Não. O português que se falava em Portugal na época do descobrimento do Brasil é o português que se fala hoje no Brasil.
Não tinha o sotaque?
Não. Nós afrancesamos, a corte afrancesou, fechamos todas as vogais. Se você puser para declamar um português e um brasileiro Os Lusíadas o do Brasil a versão brasileira bate todas as rimas certas e a de Portugal não.
Não havia, então esse sotaque maravilhoso?
Não. Nós fechamos as vogais em razão da influência francesa. O que faz todo o sentido. Portugal recebeu influência da Europa, e vocês ficaram com a influência da América.
Péssima influência…
Eu não acho. Eu não acho. É apenas diferente. Tem coisas bem melhores que na Europa. Pensamento positivo, o querer desbravar as coisas, o acreditar em sonhos malucos, o ter coragem, uma certa alegria, uma certa loucura. É muito mais saudável a loucura da América do que a loucura da Europa.
Gozado. Daqui parece exatamente o contrário.
Dizem que Portugal é maravilhoso. Vai morar lá! Por que vocês não vão morar lá? Vão morar lá e vocês vão ver o peso que é, a carga de não ter espaço para uma pessoa se expandir, não ter dimensão, não ter importância.
Por que?
Porque um artista em Portugal, por exemplo, faz uma coisa que não tem a menor importância.
Mas como?
Não tem mercado. Não rola. A coisa não cresce. Um disco de ouro em Portugal são 10 mil CDs. Não dá nem pra gravar o segundo. O artista, lá, ou nasce pronto, é genial, ou não tem hipótese de fazer a segunda vez para corrigir ou reaprender. Portugal é lindo. Eu vou te dizer para o que Portugal é lindo: namorar… comer… viajar… passear… tem as pousadas mais lindas… come-se maravilhosamente, as pessoas são simpáticas… no dia em que você diz vou morar aqui, a coisa começa. Começa pelo alugar da casa ou pela compra da casa. Começa logo a encrenca.
Por que?
Burocracia. Vocês acham que foram vocês que inventaram a burocracia? Vocês só pioraram com requintes de malvadez. Porque ela nasceu lá. E fora que nunca nada é possível. “Eu quero um sanduíche de queijo”. “Só tem misto”. “Você tira o presunto”. “Não pode”. Tudo é não pode. A palavra é não pode. Mas eu pago. Não pode. Mas eu quero. Não pode. Então você pede misto e tira o presunto. Tudo não pode. Portugal é o país do não pode. Não é possível. Em Portugal não respondem e-mail.
Não respondem? Por que?
Eles não sabem que qualquer resposta vale a pena: oi… recebi… obrigada… qualquer coisa está bom, porque essa é a linguagem do e-mail. Eles não respondem. Porque têm medo das coisas escritas. Está escrito, é sagrado. Não respondem o e-mail porque o e-mail pode virar um inferno. Tem uma série de características – não são defeitos, são características – que eu acho que para viver no dia a dia uma pessoa rápida, que tem pressa, que tem coragem, que acredita nas coisas Portugal não é o país para ela. Portugal é um belo país para conhecer, mas, mesmo assim, no verão, porque para o inverno as casas não estão preparadas. Entre maio e outubro é maravilhoso, depois eu prefiro vir para aqui na outra época. É o que eu faço há 25 anos. Porque eu não gosto de frio. Eu nasci na Serra da Estrela, um gelo do cão, mas tenho baixa resistência. Acordo de manhã, um frio, tá tudo um gelo, tomar banho, é um horror. Então, Portugal tem esse problema.
E Cabral, que também é da Serra da Estrela é um herói em Portugal?
Nós descobrimos mais coisas além do Brasil. Então, nós temos muitos heróis.
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