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Editor Geral: ALEX SOLNIK

Entrevistas

NASI: CAIM, ABEL E ROCK’N ROLL

nasi - iraA assessora me telefona mais ou menos uma hora antes do encontro marcado com Nasi: “Olha, a entrevista não vai ser mais na casa dele e sim no Museu Afro. Ele vai estar lá entre duas e meia e três e meia”. Chego ao museu às três sem saber como exatamente vou encontrá-lo. Se ele é visitante. Se trabalha no museu. Dou uma volta, não vejo alguém com cara de Nasi. Pergunto ao porteiro se ele viu alguém assim como um roqueiro. Nada. Só mais tarde, quando a assessora me dá seu celular consigo saber que ele está atrasado. “Estou na Juscelino.” diz ele. Espero sentado. Eis que passa à minha frente um cara com brinco na orelha. Suspeito que é ele. É, sim, mas não me identifica, nem eu a ele. Liga no meu celular. E então nos encontramos. Logo fico sabendo porque ele quis marcar no museu Afro. Seguimos andando pelo museu e conversando:

Nasi. Teu apelido veio de onde?
O apelido veio de violência em escola.

Você era violento?
Olha, eu estudei numa escola estadual que era vizinha de uma unidade da Febem. Violento eu não era, mas a escola tinha  pessoas muito violentas e eu tinha que me virar. Na época havia uma série na TV, as pessoas não têm noção do que era, o Holocausto. Foi uma espécie de Lista de Schindler. As pessoas paravam para ver. Tinha o Fantástico e depois Holocausto. E por que começaram a me chamar disso? Porque eu aprontava muito. Meu primeiro ano no colegial, quando eu entrei no Colégio Brasilio Machado, tinha aquela turma de repetentes mandando nos alunos. E eu via como toda a minha turma era subjugada por eles. Iam lá, pegavam as meninas, jogavam bola na nossa hora do recreio, até que eu bati tanto de frente com eles, eu, aos poucos, com a minha turma, expulsei os caras de lá.

Na porrada ou na conversa?
Na porrada… ou na… olha, à moda calabresa. Eu sou descendente de calabrês. Dizem que são os italianos mais violentos que tem.

Você chegou a colocar em prática suas virtudes calabresas?
Ah, sim. Era a lei da sobrevivência naquela escola. E não só para mim; para toda aquela turma de novatos que estava chegando.

Você virou defensor dos fracos e dos oprimidos?
Primeiro, defensor de mim mesmo. Então, me chamavam de nazi por causa do Holocausto. Foi a primeira vez que popularmente os nazistas viraram ícones de maldade, de violência.

Qual foi a maldade que você fez?
Briga que eu tô falando é assim. Justamente por eu começar a ficar estigmatizado por brigar com professores ou arranjar briga depois da saída da escola.

Lá dentro não podia.
Na minha escola, teve um diretor que proibiu o beijo, nem beijo gay, mas o beijo dentro da escola. E mais: os namorados não podiam andar de mão dada. Eu peitei isso daí. Várias vezes fui pra diretoria e fui suspenso porque achava aquilo um absurdo. Outra coisa: os alunos eram obrigados a usar avental. Falei: horrível isso, não quero colocar. Aí começou assim: quem vier sem avental, não entra na aula. Aí, o que é que eu fiz? Na época estava começando a moda punk. Eu peguei um avental meu, piquei todo ele e grudei aqueles alfinetes próprios do punk. Mais uma vez para a diretoria…

E como era a vida na tua casa?
Uma das minhas grandes diversões na infância era ir pra fábrica do meu avô (de móveis). Até hoje, se fechar os olhos e respirar fundo, eu sinto aquele cheiro de serragem. A fábrica era de um lado a 13 de maio e do outro a João Passalaqua. O meu avô fazia umas espingardas e falava pra mim: um dia vou te levar pra África pra caçar leões. E eu tenho uma fascinação muito grande pela África, pelas religiões africanas, pela história da evolução do homem, o homo sapiens nasceu na África. Eu sou do candomblé. Não acredito numa religião que crucificou o próprio filho de Deus. Na minha religião os orixás são venerados. Ai de quem crucificar o filho de um orixá! É queimado na hora. Existe uma entidade no candomblé chamada Trixter. Ele representa o contraditório. O bem e o mal. Como o bem e o mal estão dentro de cada um de nós. A dinâmica disso… .. da mensagem… E que infelizmente o catolicismo sincretizou ele como diabo. Por quê? Porque ele representa as nossas necessidades e os desejos mais primitivos, mas primitivos no bom sentido, os desejos que vêm primeiro, que são naturais: o sexo, a procriação, o desejo, mesmo a violência, a violência é natural do ser humano, você tem que aprender a lidar com ela.  Aonde você vai direcionar? Na arte? Na criação? No ímpeto político? Ou você vai brigar no pátio do colégio? O rock pra mim foi… eu gosto de ser considerado artista com a minúsculo, entendeu? Eu acho que a arte mesmo pertence aos grandes escritores, aos grandes dramaturgos, eu sou nada mais do que um exu encarnado. Provocando as pessoas em forma de Trixter.

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Discussão

Um comentrio sobre “NASI: CAIM, ABEL E ROCK’N ROLL”

  1. Show.

    Postado por Nika | Janeiro 7, 2009, 1:03 pm

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