ANTONIO ESPINOSA, COMANDANTE MILITAR NACIONAL DA VAR-PALMARES CONTA O ANTES, O DURANTE E O DEPOIS DA MAIOR EXPROPRIAÇÃO DA ESQUERDA BRASILEIRA.
O romance entre o governador Adhemar de Barros e sua secretária Ana Capriglione era o fato mais conhecido e menos (aliás, nunca) noticiado pelos setoristas do Palácio dos Campos Elíseos. O próprio governador, que costumava cumprimentar os mais chegados com uma barrigada, fazia troça com a história ao inventar um apelido curioso para ela: Dr. Rui.
Somente muitos anos depois de sua morte, os mais corajosos decidiram abrir o jogo. Em seu livro “À Margem do Sena”, Realli Jr. revela ter passado a noite de 31 de março para 1º. de abril de 1964 no palácio do governador, tendo testemunhado uma cena que classificou de surrealista. Durante uma conversa telefônica com o governador do Rio, Carlos Lacerda, Adhemar foi interrompido por um assessor. Imediatamente, desligou e pegou outro telefone, que atendeu assim; “Alô, meu bem, estava falando com o seu governador.”.
“O ‘meu bem’ era o doutor Rui, sua amante carioca” diz Realli Jr. “Chamava-se Ana Capriglione, mulher de um médico famoso do Rio de Janeiro. Ela mandava no governo: nomeava secretários de Estado, os demitia… Era uma loucura.”
Adhemar foi fundamental para o golpe de 64. Mas desentendeu-se com Castello Branco ao perceber que ele não iria honrar o compromisso de devolver o poder aos civis em um ano.
Certa vez, em 65, Hebe Camargo perguntou ao governador, num programa de TV ao vivo, se achava Castello Branco “uma gracinha”.
“Uma gracinha? Ele é horroroso”, respondeu Adhemar.
De outra feita, disse ao repórter Ferreira Netto, também ao vivo, na TV, que Castello “era mais feio por dentro que por fora”.
Finalmente cassado por Castello, em 66, foi para o exílio, em Paris. Num de seus retornos ao Brasil chegou, de surpresa, à Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil). O repórter Edwaldo Pacote, um de seus chapas, estava lá. Ansioso. Será que o governador teria algo contra ele, um homem de esquerda? Só relaxou quando Adhemar, ao encontrá-lo deu-lhe uma barrigada amiga.
“Ele estava em Paris com o dr. Rui” diz Pacote. “Ela era visdtosa”, completa.
Era também Dr. Rui quem estava ao seu lado quando Adhemar morreu, em 1969, e foi quem trouxe seu corpo ao Brasil. No velório, quase uma saia-justa. Dr. Rui queria ficar velando o tempo todo, dona Leonor também. Finalmente, a amante ficou de plantão de madrugada, e a esposa na outra parte do dia.
Estamos em 1969. Você e o Lamarca estão na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e são procurados pelo Juarez ou Juvenal da COLINA (Comando de Libertação Nacional) para roubar o cofre do Adhemar? Começou assim a história?
ANTONIO ESPINOSA: Não. Desde que houve a cisão da POLOP (Política Operária)… eu não fui da POLOP, entrei na VPR direto, por intermédio de Osasco… mas, desde que houve a cisão com a POLOP , que começou em 66 e acabou se cristalizando em 67 havia um grau de intimidade política e conversação entre as várias cisões da POLOP . A cisão do Rio e de Minas decidiu imediatamente constituir uma organização de novo. A de São Paulo preferiu amadurecer o debate aqui. Mas o contato entre VPR (ainda sem esse nome) e COLINA vem desde o tempo da POLOP. Em seguida a cisão da POLOP de SP se aproximou de uma pequena cisão do MNR, que tinha vários militares, marinheiros, sargentos, como Onofre; então promoveram uma fusão. Em dezembro de 68 essa fusão acabou gerando a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Ela foi constituída em março, mas durante nove meses ela não teve um nome, era um grupo. Era o “o pontinhos”. Mas as conversações com os dissidentes da COLINA continuaram nesse tempo todo. No início de 69 alugamos um aparelho no Rio e mantivemos lá uma espécie de embaixada da VPR. O contato não era com o Juarez, o contato era mais com o Breno (Carlos Alberto Soares de Freitas). Periodicamente ia alguém para o Rio.
A COLINA e a VPR tinham o mesmo ideário? Vocês eram maoístas?
Não, o que havia acontecido com as duas cisões era a influência da revolução cubana. Mas não havia um vinculo orgânico com Cuba. Era o modelo cubano. Que chegara a essas organizações sobretudo com o livro de Regis Debray - Revolução na revolução. Que dispensava a existência de um grande partido político com sólidas bases operárias e populares, dispensava isso. Permitia que a partir de uma pequena vanguarda você radicalizasse a guerra fazendo com que o partido se consolidasse nesse processo. Esse era um dado comum a todas elas. A VPR até o final cresceu muito em São Paulo, não criou laços sólidos fora. Já a COLINA começou com dois estados, Rio e Minas. Depois eles tiveram contato com a cisão do Partidão do Rio Grande do Sul e de Pernambuco e cada uma dessas organizações passou por uma onda de prisões bravas no começo de 69…
Vocês já tinham feito ações, assaltado bancos?
Já, já. Bancos… Chandler…
Você participou do assassinato de Chandler?
Não, eu não. Eu estava em Osasco. A VPR foi a organização que recrutou as principais lideranças de Osasco. Foi quase uma terceira força. Só de Osasco ela recrutou cerca de 60 a 70 militantes. E eu fui um deles. A organização na época tinha umas oitenta pessoas, então o grupo de Osasco tinha um certo peso. Só que não foi uma fusão. Nós fomos recrutados. Um a um. O pessoal de Osasco tinha um peso nas discussões democráticas, mas não tinha peso na direção.
Você não entrou de cara na direção?
De cara, não. No final de 68 o João Quartim foi expulso. E o Zé Ibrahim foi cooptado para a direção da VPR. Mas não durou muito. Eram três na direção. Final de janeiro, começo de fevereiro houve uma onda de prisões grande. Dois dos três da direção nacional foram presos. Sobrou só um. Valdir Sarapu. Deve estar de volta ao ABC, São Caetano, São Bernardo, onde morava. Sarapu me convidou para integrar a direção. Nós dois cooptamos o Barreto. Nesse período nós tivemos que reestruturar nossa forma de organização, tirar todos os resquicios de liberalismo, tais como saber o verdadeiro nome de alguém… o endereço… chegar atrasado num ponto… se encontrar em locais conhecidos… deixar passar alguma dica a respeito de sua identidade… Então, logo em seguida eu acabei dando um golpe dentro da VPR. O Barreto, poeta, adorava ir pra Osasco, procurado como ele era, adorava fazer serenatas. Um dia ele estava indo fazer serenata e havia uma batida dos dois lados da ponte Eusebio Matoso. E ele no táxi com o violão. Acabou dando sorte, saiu numa correria, com o violão, estava desarmado, a polícia atrás dele, ele acabou saltando um muro, explicou para a mulher o que estava acontecendo, e a mulher foi solidária, acabou dando refúgio. Não foi preso por isso. Mas nós já tínhamos proibido de ele se aproximar de Osasco, imagina fazer serenata. Não pela serenata, que é legal, mas porque ele ficava muito exposto. O próprio Sarapu, em confidências comigo, estava vacilando, achando que se fosse preso talvez não agüentasse a tortura, queria sair. Então, ele me passou os seus contatos e eu disse a eles (Sarapu e Barreto): “A partir de agora nós estamos sob regime ditatorial. Serei eu o ditador. Vocês têm alguma dúvida? Vocês vão manter os seus contatos e vão passar para mim todos os contatos-chave das coordenações. A partir de agora o ponto é cinco minutos, cada um caminhando de um lado da rua, se o outro não te olhar na cara ou abrir os braços, não chegue. Nome de guerra é só nome de guerra.”
O Lamarca já estava na VPR a essa altura?
Já, já.
E você mandava no Lamarca?
Nesse momento, sim.
Mas ele não era já o capitão etc com muito mais experiência militar do que você?
Eu era um moleque. O Lamarca na verdade nesse período estava indisponível, guardado no aparelho. Ele não podia mostrar as caras. Não tinha uma atuação prática. Ao entrar, ele imaginou que nós tivéssemos já um setor camponês forte, uma guerrilha sendo executada e ele viria se incorporar ao exército. Não tinha expectativa de ser comandante, ele entrou como soldado. Capitão ele era de outro exército. Mas o que passaram para ele não correspondia à verdade, nós não tínhamos esse trabalho. Só que do dia pra noite ele se tornou o cara mais procurado do Brasil. Nos momentos em que nós sofríamos quedas, ele foi guardado, arranjamos um lugar para ele na casa de Elenice e Ulysses Guariba - a Elenice morreu na época, mas o Ulysses está aí, dá aula na História, foi reitor da Unesp, o Lamarca ficou guardado na casa deles, onde eu tinha ficado antes. Aí eu saí, falei é legal, o Lamarca ficou lá, isolado. Eu acabei dando o golpe também por pressão dos militares da organização, o Nóbrega, o Claudio Ribeiro, o Darcy, o Mariani (ex-cabo Mariani). “Se continuar desse jeito, vamos ser todos presos. Você tem que assumir poderes totais para mudar as regras.”
A coisa rolava frouxa?
Era preciso mudar a cultura da organização.
Para quem você falou sobre as novas regras, para um grupo grande?
Não, falei para os dois e os dois iam avisar o pessoal. Não tinha como fazer reunião com mais de três. No comando também era assim. Tinham que ser poucos para não dar bandeira. Pra ser uma coisa ágil, decisões rápidas, mas colegiadas.
Por maioria?
Por maioria. A gente discutia muito. Se possível, por consenso. Nisso a VPR e depois a VAR Palmares se diferenciavam da ALN (Aliança Libertadora Nacional) que tinha chefe.
Era o Carlos Marighela?
Marighela… depois o Toledo… na fase final, o Carlos Eugenio, ele era um garoto, na fase do justiçamento do Boilensen… E nós sempre fomos colegiados, direção colegiada, sempre colegiado de cima até embaixo. Era a coordenação urbana, coordenação operária, coordenação estudantil, coordenação de imprensa. A partir da direção tinha uma coordenação, que também era um organismo colegiado, que discutia colegiadamente…
E respondia à direção?
Respondia à direção. Mas era uma direção colegiada. Mesmo os militantes, que estavam organizados em células de quatro ou cinco, que ocupavam um aparelho, a célula era colegiada, tinha vida política, tinha debate político. Não tinham, necessariamente, essa vida política os aliados, os para-militantes, os que estavam em processo de recrutamento. Estes tinham vinculo com a organização, mas não participavam da vida democrática interna. Qualquer um podia escrever documentos, mesmo contrários à linha oficial. Esse documento seria reproduzido pela imprensa e chegaria a todos… Ladislas Dawbor, por exemplo, que era da VPR, tinha as teses dele, tinha uma linha mais argelina, todos os documentos dele eram publicados e distribuídos. Ele não tinha um adepto. Jamais ninguém foi eleito pelo jamilismo (Jamil era seu nome de guerra) para conferências, congressos. Nem na célula dele ele era majoritário. Era um cara isolado. Escreveu oito ou nove documentos. O Lamarca não gostava muito disso, achava que a gente estava gastando dinheiro precioso com coisa que daria pouco fruto. Isso era dar espaço ao exibicionismo individual. Não, Lamarca isso é um principio democrático, democracia interna pra gente era sagrada. Esses documentos sempre foram publicados e sempre circularam. Exceto no período ditatorial, nos quarenta e poucos dias. Em fevereiro de 69. Em março nos sentimos em condições de realizar o congresso, que seria em abril, para eleger uma nova direção e a linha política, era essa a pauta. Todas as células elegeram seus representantes.
Em março de 69 morre Adhemar de Barros…
Não tem nada a ver conosco. (Risos) O cofre foi quatro meses depois.
Ele morreu em Paris, do coração, onde estava acompanhado por Ana Capriglione, o Dr. Rui. Ela trouxe o corpo para o |Brasil e quis participar do velório na Consolação.
Bom, todos os setores reunidos, quem quis escrever documentos escreveu e houve um processo de eleições de delegados. Fizemos esse congresso na Praia Grande, a gente ficava rodando por ali, Itanhaém, alugando casas. Foi congresso de dois ou três dias. Foi neste congresso que o Valdir Sarapu se desligou, após esse congresso ele foi para o exílio. Não foi eleito pra direção. Eu fui reconduzido para o comando. Foi aí que o Lamarca chegou à direção. Com ele foram eleitos o Claudio Ribeiro, o marinheiro, que tinha uma longa experiência de ações, o Fernando Mesquita era o quarto, era economista, depois professor na Federal de Mato Grosso, uma liderança estudantil significativa e foi eleito um cara novo que era jornalista que se desatacou no congresso, o Mario Japa. Casado hoje com a Lia (Maria do Carmo) que era a mulher do Juarez na época. Ele morreu; no exílio, o Mario Japa reencontrou a Lia e se casaram.Estão juntos até hoje. No mesmo mês de abril, a COLINA também fez uma espécie de conferência com o pessoal do Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e deixou de se chamar COLINA, eles também definiram o caráter socialista da revolução, como nós em nosso congresso. Se era socialista por que se chamar COLINA? O nome estava errado. A outra razão é que eles definiram como prioridade lá – como nós definimos aqui – a fusão da VPR com a ex-COLINA. E tiraram uma direção de sete. Nós tínhamos cinco na direção. Nesse meio tempo o Juarez, no Rio, já estava fazendo levantamentos do cofre, já vinha trabalhando em cima disso.
Eles não tinham armas e pessoal para fazer a ação, por isso precisavam de vocês?
Para fazer uma ação talvez eles tivessem. Mas a idéia era fazer os dois cofres, ele estava levantando dois cofres. Para as duas ações, eles não teriam condições. Nós até emprestaríamos armas, nós tínhamos, e nossa intimidade era suficiente a esse ponto. Mas eles também achavam que talvez fosse mais seguro contar com quadros experientes da VPR, porque não era só fazer a ação. Tinha havido quedas deles em Minas, onde morreu o sargento Lucas Alves, muitos presos. Eles tinham um mini-exército, 50 mineiros morando no Rio num negócio que eles chamavam de Deslocados. Negócio caro, todo esse pessoal morando no Rio, em aparelhos, só pra refúgio. No Rio também era fácil alugar. Então precisava estruturar uma organização nova para acomodar o pessoal, definir nome, documentos, diplomas falsos, para que tivessem uma profissão… Até pediram, um pouco antes da fusão, uma força nossa pra “fazer” um banco no Rio (o Banco Aliança). Nós até mandamos dois ou três militantes, entre eles o João Domingues, um açougueiro que era bom, era o nosso melhor atirador.
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