Cinco horas de entrevista ao vivo, em francês, sem tradução, sem intervalo comercial, numa TV brasileira. “Como pode?” perguntou Jean-Paul Sartre aos entrevistadores.
Tudo conspirava a nosso favor. O mundo nos olhava com um misto de admiração e inveja. Precisavam de um campeão de boxe? Nós tínhamos Eder Jofre. Uma campeã de tênis? Nossa Maria Ester Bueno era a deusa de Wimbledon. As mulheres mais belas do mundo? Marta Rocha serve?
Mas tinha mais, muito mais. Nosso Vinicius de Moraes escreveu Orfeu, um francês filmou e nós ganhamos a Palma de Ouro em Cannes. Éramos a terra do falou e disse. Juscelino falou: vou construir Brasília em quatro anos. E construiu.
Conosco ninguém podosco – era o sentimento que nos dominava, de Norte a Sul, principalmente no Sudeste.
Contagiado por esse clima, Álvaro Moya não perdeu uma noite de sono por ter de inaugurar a nova TV de São Paulo sem estúdio. A torre de transmissão estava lá, na esquina da Paulista com a Consolação. Era o bastante. Com o estúdio se daria um jeito mais tarde. Claro, ele se apoiava numa certeza: os Simonsen eram muito, muito ricos.
“Eles eram riquíssimos! Acho que no Brasil eu nunca tinha visto ninguém tão rico como eles. Porque eles eram ricos em libras esterlinas. Todos os negócios deles eram feitos em bancos ingleses. E o Mario Wallace Simonsen tinha 53 firmas em Zurique, na Suíça. O castelo deles, em Londres, era um negócio! Enorme! Uma vez o Wallinho mostrou uma foto para nós. A foto de um castelo. Todo mundo achou demais. E ele falou: ‘Essa é o castelo dos empregados. O nosso fica um pouco mais pra cima’. Uma coisa é o cara ser rico no Brasil, outra coisa é ser rico em Londres, em Zurique.”
A festa de inauguração foi improvisada na revendedora Ford de Luis Simonsen, irmão do dono da nova TV, ao lado do Teatro Paulo Eiró no dia previamente marcado: 9 de julho de 1960.
Moya tinha razão: em poucos dias, seus braços-direitos Manoel Carlos e Jayme Barcellos descobriram um ótimo local para sede da TV Excelsior: o teatro Cultura Artística, na rua Nestor Pestana.
“A Sociedade Cultura Artística estava mal de dinheiro” conta Moya “não conseguia pagar um empréstimo da Caixa Econômica Federal. Os credores ficaram contentes quando nos dispusemos a alugar o teatro.”
Poderiam ter comprado, por uma bagatela, algo como 100 mil dólares. Mas o patrão – dono da Panair, do Banco Noroeste e maior cafeicultor do país – optou por alugar.
Além de colocar as contas em dia, Moya ainda concordou em manter o calendário de concertos das salas, que seriam transmitidos ao vivo pela TV.
E assim, a 31 de julho, deu-se a nova festa de inauguração da Excelsior, apresentada por Bibi Ferreira. No Cultura Artística.
Nada, nada mesmo podia dar errado naqueles dias luminosos. Parecia musical da Metro. Moya não precisava arrancar os cabelos atrás de talentos. Eles caíam literalmente do céu.
“O José Vasconcelos falou que conhecia um rapaz que tinha estudado na Suíça, era muito culto e que era casado com uma prima dele. A Teresa Austregésilo. Ele tinha voltado há pouco tempo da Suíça e queria ser humorista. Chamamos o Jô para fazer um número no Brasil 60, que era o nosso carro-chefe, apresentado pela Bibi Ferreira e escrito pelo Manoel Carlos. A platéia não achou a menor graça, porque o humor do Jô era muito intelectual. Mas eu e o Maneco adoramos e o contratamos. Ele fez um programa de humor totalmente sozinho, com vários números, fazia aquela dança com os dedinhos e outras coisas muito engraçadas. Dublava filmes de bang-bang…”
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Moya tinha três redatores principais: Jô Soares, Boni e Manoel Carlos. Eles escreviam o Simonetti Show, programa com a orquestra do maestro Enrico Simonetti. Dois músicos revelaram-se extraordinários humoristas: o guitarrista Edgar e o contrabaixista Capacete.
Manoel Carlos era o mais cabeça:
“Eu li tudo do Sartre que na época estava traduzido. Eu e toda a minha geração. E já havíamos visto pelo menos meia dúzia de vezes o espetáculo “Entre 4 Paredes”, no TBC, que é de 1950.”
Na fusão entre a sala de espetáculos e a TV não foi a sala que se popularizou; a TV se elitizou. Nos menores detalhes. Os cameramen, que sempre trabalharam com qualquer roupa em outras emissoras, tinham de vestir blazer azul, com logotipo, coisa muito fina.
Havia espetáculos dentro e fora do teatro. Moya recorda:
“Quando o Jô chegava na porta do Teatro Cultura Artística, e descia da Romiseta dele (um carro minúsculo, só cabia o motorista), a gente ficava na porta e fazia um barulho de estalar, com o dedo na boca. Aquele barulho de alguma coisa muito apertada saindo de uma lata! Não dava para entender como ele cabia lá dentro. Era uma turma de muitos gozadores: o Leon Eliachar, o Juca Chaves, o Manoel Carlos.“
Moya gostou tanto da festa de inauguração que resolveu transformá-la num programa semanal. O Brasil 60 fez escola. Abriu as portas para os festivais e mostrou a bossa-nova a São Paulo. Bibi Ferreira apresentou João Gilberto algumas vezes. Numa delas, ele fez dupla com Orlando Silva.
Juca Chaves cantou com Lamartine Babo. Aracy de Almeida com Pixinguinha. Leonardo Villar entrou em cena com a cruz do Pagador de Promessas. Anselmo Duarte trouxe a Palma de Ouro.
Na BBC, de Londres e na TV de Moscou, Moya aprendeu que entrevistado bom é entrevistado pago. Assim chegava na hora. E tinha de participar do ensaio.
Só um entrevistado não ensaiou. Nem recebeu cachê. Com a palavra, Manoel Carlos:
“Posso dizer que fui o responsável direto pela entrevista do Sartre na TV. E foi tudo muito simples. O Bento, já meu querido amigo, me falou da vinda do Sartre e disse que seria bom se se conseguisse um lugar amplo para uma entrevista com estudantes e professores. Eu era então coordenador geral da programação da Excelsior, abaixo apenas do Álvaro Moya, diretor-artístico. Falei com ele e o Moya, também um artista, também um escritor, sensível à cultura de um modo geral, franqueou o grande auditório, com mais de mil lugares.”
Procedeu-se, então, às negociações. Sartre andava pra cima e pra baixo com Jorge Amado, seu grande amigo e cicerone no Brasil. Quando recebeu o convite de Bento Prado Jr. e de Roberto Schwartz para ir à TV pediu a opinião do escritor.
“Não vá” respondeu Jorge Amado. “ O nível da televisão brasileira é muito baixo, eles vão fazer perguntas ridículas.”
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