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Editor Geral: ALEX SOLNIK

Mundo

Moscou em Chamas

Lilia era mulher de Ossip, que era amigo de Maiakovski, que se apaixonou por Lilia. E os três viveram juntos por muitos e muitos anos.
O elevador pára dentro do apartamento. É um duplex horizontal. Os dois apartamentos fronteiriços formam um só. Boris Shnaiderman parece estar bem forte aos 92. Não dá um sinal de cansaço, seja de que espécie for. Seus olhos melancólicos não deixam mentir: ele é uma alma russa. Me encaminha até uma mesa redonda, com muita luz. Em volta de nós, estantes com livros bem arrumados, em meio a objetos, tapetes, quadros de toda uma vida.É muito aconchegante, inesperado para o lugar onde está localizado, perto da Praça Marechal Deodoro, região degradada onde em outros tempos estava instalada a sede da Rede Globo de São Paulo. Boris é nacionalmente reconhecido há mais de 40 anos como o melhor tradutor de escritores russos para o português, principalmente Vladímir Maiakovski, de quem conhece de cor e salteado não só a obra, como a vida.

Vocè nasceu em 1917, na Rússia. Como estava a situação da sua família, como foi o impacto da revolução russa na sua casa?
Bom, meu pai se ocupava de comércio  e nos primeiros tempos após a revolução  ele estava relativamente bem de vida. Foi uma situação estranha, a minha família estava bastante bem nos anos pós- revolução.

Você se lembra daquela época?
Eu me lembro desde os três anos. Eu me lembro desde os três anos, três anos e pouco e eu me lembro…

Onde você estava?
Quando eu tinha um ano mais ou menos me levaram pra cidade de Odessa, então a minha primeira infância decorreu em Odessa.

É uma cidade que não é pequena.
Não, Odessa não é cidade pequena, atualmente tem um pouco mais de um milhão de habitantes, era principalmente um grande porto, um grande porto do Mar Negro…

E estância balneária na época…
Sim, sim, estância balneária, aliás, continua sendo  uma estância balneária.

E o comércio do seu pai era o que, tecidos, armarinho, o que era?
Não, não. Meu pai viajava e comprava coisas no Cáucaso pra vender em Odessa. Com a nova política econômica houve assim uma certa margem para atividades  dos comerciantes particulares e ele até chegou a ter uma indústria na época, uma fábrica de conservas.

Sardinhas?
De conservas, não é de sardinhas. Ocorre bastante em Odessa a Cungriá que corresponde mais ou menos à nossa cavalinha e ele fazia então conservas de Cungriá. Mas isso foi só nos primeiros tempos, logo depois teve que fechar a fábrica, as coisas foram apertando lá e ele viu que a situação não estava cem por cento boa pra ele, que as coisas iam piorar pro comércio particular e ai nós viemos para o Brasil.

A sua infância em Odessa foi até quantos anos?
Até os oito anos.

Ah, então você fez o primeiro ano escolar lá?
Fiz, fiz.

Como era a escola, como  era o primeiro ano?
Eu me lembro que eu cheguei a freqüentar o jardim de infância, mas eu só fui uma vez  porque as crianças ficavam brincando de roda e cantando A Internacional e eu não conhecia a letra da Internacional. Em casa, o ambiente era todo não comunista, pelo menos.

E de que cenas você tem lembranças?
De que cenas? Ihhh, eu tenho lembrança de muitas coisas, eu me lembro muito porque eram anos marcantes né, muito marcantes. A primeira coisa de que eu me lembro é das pessoas caídas na rua por causa da fome, a fome de 1921.

As pessoas caídas mortas?
Caídas morrendo. Eu me lembro de um homem morrendo e a minha governanta - em casa nós tínhamos empregada que meus pais chamavam de governanta pra não dizer empregada -eu estava na rua  com minha governanta, um homem estava caído no chão e ela apanhando um pedaço de pão e dando pra ele de comer, mas ele mal conseguia mexer os lábios. Estava caído de fome.

Na sua infância o líder era o Lênin né?
Sim, eu me lembro da morte de Lênin que foi assim um transtorno em toda a vida do país. Eu me lembro que os carros ficaram andando durante cinco minutos…, os carros andando, buzinando e os ônibus assim tocando assim a sineta e outros cinco minutos tudo parado. Eu me lembro que foi assim uma comoção nacional, mesmo os que não eram muito adeptos do sistema, no fundo tinham uma admiração pela pessoa, pela figura dele.

O Lênin era uma figura querida da população?
Era sim…, tinha conseguido consolidar o regime. Quando ele morreu estava em desenvolvimento a política que ele tinha instaurado que soltava um pouco as rédeas, um pouco de iniciativa privada ele permitiu isso era a nova política econômica, a nova economia política. E as coisas estavam começando a entrar nos eixos, começando entrar nos eixos.

Você chegou a ver o Lênin alguma vez?
Não. O Lênin eu nunca vi.

E o Einsenstein, você viu?
Eu assisti a filmagem do Encouraçado Potemkin. Mas não vi Eisenstein. É que eu brincava na escadaria de Odessa e via aquele movimento, eu não sabia o que era, não tinha a menor idéia do que fosse e vi, assisti a filmagem.

O que estava acontecendo, qual cena que era, você se lembra?
Eu me lembro, me lembro muito bem da cena dos chapéus, me lembro que apareceram umas senhoras elegantes com trajes do começo do século que eu não conhecia, não entendia o que era aquilo, porque estavam com aqueles trajes esquisitos, trajes chiques da burguesia da época e depois os homens assim todos de chapéu e ai de repente eles começavam a atirar o chapéu suado saudando os marinheiros do Encouraçado. Eu me lembro dessas cenas, eu vi filmar.

Maiakovski se matou nos primeiros anos da revolução; ele se matou por desgosto com os rumos da revolução?
É difícil dizer, fulano se matou por isso ou fulano se matou por aquilo. Geralmente são muitas, são várias…, é convergência de vários fatores que foi o caso do Maiakovski.  Dizer que ele se matou por uma questão sentimental não é verdade porque mulher ele sempre teve, levou uma vida amorosa muito intensa, muito diversificada e era natural que ele tivesse lá os seus desgostos de amor e tal, mas não chegava a tal ponto dele chegar a se suicidar.

As moças naquela época tinham liberdade sexual?
Nos primeiros tempos após a revolução sim.

Não tinha aquilo de virgindade, casamento?
Havia, havia, mas ao mesmo tempo que havia na burguesia, na classe média e na aristocracia havia o tabu da virgindade e tudo, tudo isso funcionava, o tabu da virgindade, mas depois da revolução, houve uma tendência por uma vida sexual mais livre. Tanto é que no Ocidente fazia-se campanha de que Moscou era um desvario, aquilo era uma devassidão, comunismo era sinônimo de devassidão nos primeiros tempos após a revolução. Depois com o Stalin a coisa apertou, o Stalin apertou os parafusos e colocou “a família acima de tudo”.

Então o Maiakovski passou a época digamos já…
De uma vida sexual muito livre, muito livre. É verdade, Maiakovski tinha uma vida sexual muito intensa, e muito diversificada, e o grande amor da vida dele foi a Lílian Brik, que eu cheguei a entrevistar, era mulher do melhor amigo dele.

Ah, essa história de mulher do melhor amigo…
Eles viveram na mesma casa os três.

E eles viviam sexualmente os três também ou não?
Não.

Como é a historia, vamos ouvir.
A Lílian Brik pelo menos me disse categoricamente que quando ela passou a viver com o Maiakovski ela deixou de ser mulher do Ossip. Foi o que ela me disse na entrevista. Nada de ménage a trois, vivemos sob o mesmo teto, mas…, e que o Ossip, embora ficasse triste e tudo, aceitava a situação e tudo bem.

E Ossip não tinha outra mulher? Foram 15 anos de vida a três, pelo que eu li.
Não. Que conste não. Não sei, não sei.

Mas é impressionante o homem aceitar isso, é difícil.
É difícil, é difícil.

Porque isso é uma situação de adultério  você sabe que sua mulher está com outro, mas você está ali do lado. Você soube de outras situações parecidas com essa, até mesmo na literatura alguma situação com três pessoas que vivem juntas, dois homens e uma mulher?
Depois da revolução era freqüente.

Ah é, na Rússia?
É. Depois da revolução na Rússia houve situações assim…, havia uma corrente lá do partido que era pelo amor livre. Havia uma figura importante do partido que era a Alexandra Kolontay, que era adepta do amor livre. Ela era do partidão, era da linha justa, não era dissidente, nem nada, e ela foi enviada como embaixadora na Suécia para ficar fora, ficar longe, e ai amaldiçoaram as obras dela, foram condenadas, mas não mexeram com a pessoa dela. Ela era adepta ao amor livre e era da linha justa do partido, era colaboradora direta do Lênin…Os costumes na sociedade, havia os remanescentes da classe média, da burguesia, que eram contra, achavam uma devassidão etc mas no partido o que predominava era a linha da Alexandra Kollontai.

A prostituição não tinha sentido na Rússia naquela época, então.
Mas existia. A prostituição existia. A prostituição sempre existiu na Rússia.       Porque é a tal história: na burguesia, na classe média - era a classe média formalmente, porque eram filhos de burgueses -, aí havia o tabu da virgindade e tudo.

O melhor amigo também era poeta, não é?
Ele era crítico. Era teórico de literatura. Era muito amigo do Maiakovski. Inclusive, uma das peças de Maiakovski baseia-se num primeiro roteiro dele. O argumento de Moscou em Chamas. Foi escrito pelo Maiakovski  mas na base de um esquema de Ossip Brik.

Não havia possibilidade de uma relação homossexual entre os dois?
Não acredito. Não acredito, mas…

Como a homossexualidade era encarada pela revolução?
Homossexualismo existia  homossexualismo na Rússia existiu. Os russos sempre ficavam bravos quando a gente tocava nesse assunto. Mas existiu o homossexualismo.

Há algum personagem homossexual na grande literatura russa Tolstoi, Dostoievski?
Não, não tratam disso.

É uma questão escondida, até nos romances.
Sabe-se, por exemplo, que |Tchaikovsky era homossexual e os russos tratavam sempre de esconder isso.,

Esse é o lado puritano dos russos.
E ficavam zangados quando a gente dizia: “Mas Tchaikovsky é homossexual.” Diziam: “Não, não, isso é calúnia.”

E desses grandes romancistas russos, algum era homossexual?
Que eu saiba, não.

Agora, se Maiakovski não se matou por problemas sentimentais…
Não, não se matou. Os problemas sentimentais existiam., mas a grande tragédia de Maiakovski consistia no seguinte|: ele era um adepto fiel da revolução e a revolução estava se voltando contra o tipo de arte que ele fazia, contra o tipo de poesia que ele escrevia e contra pintura, escultura, teatro das correntes modernas. Foi a grande diferença dele com o partido. A cúpula do partido era defensora da arte tradicional e  ele era pela arte avançada, moderna.

O suicídio foi um protesto dele, digamos assim?
Ficou irrespirável, o ambiente para ele ficou irrespirável. Ele teve um romance… bom, ele teve várias mulheres. Um dos romances dele era com uma russa emigrada em Paris. Ele queria voltar a Paris para se encontrar com essa mulher e não deram passaporte pra ele. Foi um grande desgosto para ele, ele não conseguia passaporte pra viajar pro exterior.

Ele era considerado inimigo do regime?
Não, não era considerado inimigo do regime. Mas era considerado suspeito de tendências indesejáveis, como essa: ter um romance com uma russa emigrada.

Ele era malvisto.
Muito malvisto. Nos últimos tempos dele ele era muito malvisto. Inclusive chegaram a escrever contra ele,. O. Gorki chegou a escrever contra a poesia dele.

Mas ele tinha muita repercussão como poeta na época dele?
Tinha. Ele era muito popular. A poesia dele era essencialmente popular, inclusive se dirige ao público. Não é uma literatura para eruditos. E ele tinha aquele dom oratório extraordinário e era ele quem dizia os versos dele, de público, Ele precisava do contato direto com o público e inclusive estavam dificultando esse contato direto. Não proibiam - ainda não havia como proibir espetáculos de Maiakovski…

E eram espetáculos pagos?
As pessoas pagavam. Uns eram pagos, outros não. Alguns não eram pagos.

Ele vivia da venda de livros? Do que ele vivia?
Ele vendia muitos livros, vendia muito. Vendia muito.

E,,, ele era contra a vodka, fazia campanha contra a vodka?
Acontece o seguinte: com ele houve todo um processo em relação a isso. Contra a vodka ele nunca foi. Há o famoso verso no poema que ele dedicou ao poeta que se suicidou, Iessênin que foi outro grande poeta que se suicidou tem um famoso verso antes morrer de vodka que de tédio.

E naquela época na Rússia os artistas, os escritores usavam algum outro estimulante? Cocaína por exemplo?
No começo do século XX houve muita droga na Rússia. Inclusive, chegou a ser um problema. Jovens drogados era fato muito comum.

Era o que? Cocaína?
Cocaína. Principalmente cocaína. Ópio também.

E Maiakovski usava?
Não. Ele gostava de um bom copo, gostava de um bom copo, mas drogas acho que não. Acho que não, não tenho certeza. O fato de ter escrito antes morrer de vodka que de tédio que foi a propósito das críticas que se fazia ao Iessênin, um bêbado, viveu na sarjeta, nos últimos tempos ele era recolhido na sarjeta. O Maiakovski escreveu um belíssimo poema sobre o suicídio do Iessênin. Mas depois entre os jovens havia um culto a |Iessênin, o Iessênjhin como boêmio, beberrão. E aí Maiakovski escreveu um roteiro de um filme que não chegou a ser filmado, criticando a figura do poeta bêbado. Mas em O Percevejo é o contrário, porque o bêbado é a figura mais simpática, o vagabundo que fica só tocando violão é a figura central e figura positiva, há uma admiração por ele.

Essa sociedade que ele cria em O Percevejo é fantástica, porque ele joga de repente a ação 50 anos à frente…
Isto.

Uma delegação brasileira na época era o cúmulo de civilização, de requinte, vir uma delegação brasileira, pousar em Moscou uma delegação brasileira, mas isso em 1928 ele estava prevendo 1978, que em 1978 seria possível esse milagre.

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